Ciro aposta em reduto bolsonarista e legado de ex-gestor para lançar pré-candidatura em Fortaleza

 


O ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) lança a pré-candidatura ao Governo do Ceará na manhã deste sábado (16), no Conjunto Ceará, em Fortaleza. A escolha pelo bairro da periferia da Capital se mostra simbólica e estratégica ao expor a aposta do político em um reduto bolsonarista, diante da aproximação com a direita cearense, além da busca de evidenciar realizações de quando foi prefeito da cidade e governador. 

É o que indica a análise de especialistas políticos e aliados do pré-candidato, ouvidos pelo PontoPoder. As avaliações tentam destrinchar os elementos que levaram Ciro a decidir pelo local.

Professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Emanuel Freitas entende que preferência pelo Conjunto Ceará aponta para um dos bairros mais populosos da periferia de Fortaleza, localizado na zona fronteiriça entre Maracanaú e Caucaia. Além disso, o local pode mobilizar o “imaginário da denúncia” e a necessidade de superar problemas da área, segundo o pesquisador. 

REDUTO BOLSONARISTA

Em paralelo, o Conjunto Ceará também serviu de palco para eventos considerados importantes para a direita cearense, como o comício de Jair Bolsonaro (PL) no 2º turno da eleição de 2022. À época, o ex-presidente tentava a reeleição, com o apoio local de Capitão Wagner (União), que havia disputado o Governo do Ceará. 

A importância do bairro para o grupo bolsonarista também foi evidenciada na campanha eleitoral pela Prefeitura de Fortaleza em 2024. O então candidato a prefeito André Fernandes (PL) escolheu o Conjunto Ceará para uma das agendas consideradas mais importantes: um ato ao lado do deputado federal Nickolas Ferreira (PL-MG). 

O Conjunto Ceará também deu umas das vitórias mais expressivas a André no primeiro turno daquele ano: o deputado federal registrou 18,1 mil votos, quantidade superior à soma dos votos de Evandro Leitão (PT), José Sarto (hoje no PSDB) e Capitão Wagner (União) — o trio acumulou cerca de 17 mil votos na área. O bolsonarista também ganhou no bairro no 2º turno, quando o petista foi eleito.

A deputada estadual Dra. Silvana (PL), líder do partido na Assembleia Legislativa, considera que o Conjunto Ceará é um “bairro de direita”, mas também foi escolhido por ser “criado e idealizado como um bairro a ser beneficiado pela gestão do Ciro”, durante os mandatos no Executivo municipal e estadual. 

SOBRAL E OUTRAS OPÇÕES

De acordo com conversas internas de aliados, o Conjunto Ceará não foi a única opção para o evento de lançamento da pré-candidatura de Ciro. Foi nesse sentido que umas das primeiras opções foi Sobral, berço político dos Ferreira Gomes. 

Ao mesmo tempo, o grupo chegou a cogitar dois momentos no mesmo dia: o primeiro em Fortaleza, pela manhã, e um segundo em Sobral, à tarde. Contudo, a ideia não avançou. 

Nos bastidores, aliados também chegaram a cogitar a realização do evento em Uiraponga, distrito do município de Morada Nova, na região do Vale do Jaguaribe. O local ficou marcado por episódios de expulsão em massa de moradores após ordens de facção criminosa, chegando a ser chamada de “cidade-fantasma”.  

A escolha seria uma forma de apostar na pauta da segurança pública, tendo em vista que a violência é o maior problema do Estado para 46% dos eleitores cearenses, segundo a pesquisa Quaest divulgada em abril.

Aliado de Ciro, o deputado estadual Felipe Mota (PSDB) entende a separação de que Sobral ensejaria em um ato “sentimental e familiar”, enquanto o Conjunto Ceará foi uma escolha que “somou com todo mundo”. 

Além disso, enfatizou o parlamentar, o bairro é considerado o ponto de virada na apuração da eleição de 1988 pela Prefeitura de Fortaleza. Na ocasião, o então deputado estadual Ciro Gomes (à época, PMDB) passou à frente do concorrente Edson Silva (PDT) a partir da contabilização dos votos do Conjunto Ceará, consagrando-se prefeito da Capital. 

Já para Emanuel de Freitas, Ciro não escolheu Sobral para não passar uma possível ideia do lugar da “família política, da oligarquia”. “Especialmente porque essa oposição de quem ele se aproximou cresceu também no imaginário do anti Ferreira Gomes e escolher Sobral apontaria para uma política tradicional que talvez ele não queira mobilizar”, avaliou o professor de Teoria Política da Uece.

“Eu acho que tem um simbolismo de não ter escolhido Sobral, portanto, não remete aí a uma ideia de herança familiar, pelo contrário, está até rompido, pretende se mostrar como rompido com um dos seus irmãos (Cid Gomes)”, apontou o pesquisador.

APROXIMAÇÃO COM A DIREITA

A oficialização do apoio do PL Ceará a Ciro Gomes deve consolidar ainda mais a relação entre os nomes e o bairro. Após idas e vindas, André Fernandes confirmou a posição nessa quinta-feira (14), em vídeo divulgado nas redes sociais, e deve participar do evento deste sábado. 

O movimento reforça, ainda, a aproximação de Ciro à direita cearense. Embora diante da já superada suspensão das articulações com o ex-ministro, uma ala do PL sempre o defendeu como mais competitivo, enquanto outros nomes bolsonaristas preferem o apoio ao senador Eduardo Girão (Novo), outro pré-candidato ao Governo. 

Para a também professora de Teoria Política da Uece, Monalisa Torres, a construção narrativa da aproximação com a direita tem sua lógica, principalmente ao pensar em duas figuras da sigla liberal que se apresentam em campos opostos em relação a Ciro: André Fernandes e a vereadora Priscila Costa, pré-candidata ao Senado e mais resistente em apoiar o tucano. 

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